terça-feira, 26 de agosto de 2008

Tão Puro

O amor que choveu

Era uma vez um menino que amava demais. Amava tanto, mas tanto, que o amor nem cabia dentro dele. Saía pelos olhos, brilhando, pela boca, cantando, pelas pernas, tremendo, pelas mãos, suando. (Só pelo umbigo é que não saía: o nó ali é tão bem dado que nunca houve um só que tenha soltado). O menino sabia que o único jeito de resolver a questão era dando o amor à menina que amava. Mas como saber o que ela achava dele? Na classe, tinha mais quinze meninos. Na escola, trezentos. No mundo, vai saber, uns dois bilhões? Como é que ia acontecer de a menina se apaixonar justo por ele, que tinha se apaixonado por ela?
O menino tentou trancar o amor numa mala, mas não tinha como: nem sentando em cima o zíper fechava. Resolveu então congelar, mas era tão quente, o amor, que fundiu o freezer, queimou a tomada, derrubou a energia do prédio, do quarteirão e logo o menino saiu andando pela cidade escura -- só ele brilhando nas ruas, deixando pegadas de Star Fix por onde pisava.O que é que eu faço? -- perguntou ao prefeito, ao amigo, ao doutor e a um pessoalzinho que passava a vida sentado em frente ao posto de gasolina. Fala pra ela! -- diziam todos, sem pensar duas vezes, mas ele não tinha coragem. E se ela não o amasse? E se não aceitasse todo o amor que ele tinha pra dar? Ele ia murchar que nem uva passa, explodir como bexiga e chorar até 31 de dezembro de 2978.
Tomou então a decisão: iria atirar seu amor ao mar. Um polvo que se agarrasse a ele -- se tem oito braços para os abraços, por que não quatro corações, para as suas paixões? Ele é que não dava conta, era só um menino, com apenas duas mãos e o maior sentimento do mundo.Foi até a beira da praia e, sem pensar duas vezes, jogou. O que o menino não sabia era que seu amor era maior do que o mar. E o amor do menino fez o oceano evaporar. Ele chorou, chorou e chorou, pela morte do mar e de seu grande amor.
Até que sentiu uma gota na ponta do nariz. Depois outra, na orelha e mais outra, no dedão do pé. Era o mar, misturado ao amor do menino, que chovia do Saara à Belém, de Meca à Jerusalém. Choveu tanto que acabou molhando a menina que o menino amava. E assim que a água tocou sua língua, ela saiu correndo para a praia, pois já fazia meses que sentia o mesmo gosto, o gosto de um amor tão grande, mas tão grande, que já nem cabia dentro dela.

[Antônio Prata]

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

No EspelhO

"O espelho e as verdades
O objeto das vontades
O espelho e as vontades
O objeto da verdade"

[3 na Massa]

Escolhi usar esse trecho da música 'Objeto', do grupo 3 na Massa, pra começar meu "desabafo" de hoje ... daí já fica a dica de ouvir esse som que estou viciada, e que é muito sensual, feminino e reflexivo.

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Olho no espelho e vejo alguém buscando evolução, com ânsia de mudar muita coisa em si, mas como começar ? Primeiro, já consigo apontar meus erros (ufa! o orgulho não me deixava isso antes) e isso já é um grande passo ...
Lembro das pessoas que me querem bem dizendo tuuudo isso, que eu sozinha consigo enxergar agora, penso em quem magoei brincando com os sentimentos, das pessoas que atingi quando me atirei ... e hoje talvez eu esteja simplesmente colhendo o que plantei.
Estando num lugar novo, com pessoas novas, redescobrindo um 'mundo' novo, eu consegui captar várias idéias que fugiam antes. Me enxergo nesse espelho - esse objeto da verdade - e vejo o quanto menti pra mim por muito tempo ... tenho vontade de quebrá-lo, juntar todos os cacos, pegar até os 7 anos de azar e renascer uma nova pessoa. Não, ainda quero ser a mesma pessoa, mas uma pessoa melhor. Melhor pra mim, melhor pros outros, melhor pro mundo.

:: E agora, José ? ::

E agora, José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,
e agora, José ?
e agora, você ?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta,
e agora, José ?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José ?

[...]


[Carlos Drummond de Andrade]